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Quem conhece o cinema catarinense contemporâneo?

Quando fizeram uma chamada buscando coprodução da Globo Filmes com produtoras independentes que trouxessem elementos regionais, as gurias da Novelo Filmes tiveram a ideia de escrever uma ficção envolvendo agroglifos, círculos gigantescos existentes em plantações de trigo no interior de Santa Catarina. Conheciam bem o assunto por já terem produzido um documentário pré-licenciado para o History Channel Brasil, inclusive cedendo imagens com finalidade de pesquisa para a Revista Ufo e para a comunidade ufológica. O elemento de ficção científica estaria presente, mas ele, sozinho, não traria a mesma carga emocional que buscava a diretora Cíntia Domit Bittar. Ela sempre mencionou que gosta da mistura de gêneros no cinema e com isso resolveu trazer um drama familiar para dentro da narrativa. Assim nasceu Um dia Extraordinário (2026).

 

As cenas se passam majoritariamente na região Oeste do estado, num filme propositalmente mais escuro, trabalhando a iluminação de forma mais contrastante sob os personagens, seja quando estes estão no agroglifo em busca da matriarca, seja dentro da casa de madeira típica. Gera estranhamento pelo seu teor de ficção científica, dando a sensação de que algo está fora de campo, prestes a acontecer. A banda sonora intensifica a experiência. Dentro da casa, a iluminação mais escurecida também traz certo conforto, como se também estivéssemos sentados ali à mesa. Um dos pontos mais especiais é justamente o sotaque da região. Como sotaque carrega identificação e território, é muitíssimo importante que a maior diversidade deles esteja presente nas telas. O do oeste catarinense pouco aparecia. A Novelo Filmes fez questão de apresentá-lo ao Brasil.

Nessa proposta, conhecemos mais sobre Moira, agricultora, e sua mãe idosa, ficcionada por extraterrestres. Claramente a aparição do agroglifo perto do terreno da família mexeu muito com a mãe e deu até notícia na TV, chamando rapidamente a atenção dos irmãos que moram longe. Logo, todos se reuniram na antiga casa em que cresceram, mostrando que a distância deixou marcas profundas na relação deles com a mãe e com Moira. Um dos aspectos que mais atraiu interesse foi justamente a forma com que foi filmado o não-preparo dos irmãos para entender o envelhecimento da mãe com Alzheimer e todas as tensões que surgem entre quem escolhe ficar e quem não. Cecília, a filha mais velha, se espanta a cada lapso de memória da mãe. Já Maurício não sabe bem como ajudar nem o que fazer, trazendo certa comicidade com sua confusão. Moira, a caçula, a filha que resolveu ficar, carrega uma dor de quem segura as pontas sozinha, de quem sente solidão, de quem chora escondida, mas segue em frente. A relação dela com a mãe foi explorada de modo tão bonito que, num dos melhores diálogos do filme, elas conversam até mesmo sobre essa percepção da passagem do tempo, por meio de uma sensação de que a filha caçula tinha de ter passado pouco tempo com a mãe. O olhar de Moira para a mãe é de puro amor. E ela retribui. Algo que é só delas.

 

São ainda escassas as representações que focam no nível de sobrecarga dos cuidadores de pessoas com demência, e considerando que a população brasileira passa por um rápido processo de envelhecimento, o filme toca justamente nesse lugar, o de olhar para o
envelhecimento e para uma doença que chega sem pedir licença com sensibilidade, sem romantizar. Um dia extraordinário traz certa familiaridade com o recente Kasa Branca (2025), de Luciano Vidigal, no sentido de também expor a dificuldade de um rapaz cuidar de
sua avó, que está em fase terminal da doença de Alzheimer. Ele conta com a ajuda de seus amigos para ajudá-lo a proporcionar momentos felizes à senhora. Moira, por sua vez, isolada no campo e longe dos irmãos, encontrou apoio na namorada, e juntas também buscaram tornar mais cheios de magia os dias de Dona Ivete. O relacionamento de Moira com outra mulher é tratado com a naturalidade que deve ser, e os irmãos vão percebendo como a distância tornou tudo mais frio, ao ponto de não conhecerem a própria irmã.

O título do meu texto foi uma pergunta: Quem conhece o cinema catarinense contemporâneo? Pergunto em sala para meus alunos o nome de algum filme, e não conseguem citar nenhum. É sintomático. Não estamos acostumados a buscar pelos filmes feitos aqui, uma busca que exige postura ativa diante da ainda existente hegemonia do cinema brasileiro. Conhecer começa por valorizar as produções catarinenses independentes, entendendo que o Brasil é vasto e não cabe nos eixos tradicionais de produção audiovisual. A Novelo Filmes vem colocando o nome do cinema de Santa Catarina em espaços importantíssimos de visibilidade a nível nacional e internacional, como é o caso do outro filme da Novelo, Virtuosas (vem aí), vencedor do prêmio Goes to Cannes no Marché du Film ano passado e do prêmio Netflix, que garante exibição em mais de 190 países. Muitos outros filmes virão, seja da Novelo sejam de outras produtoras independentes. Importante acompanhar, conhecer, se sentir orgulhoso de ver a cultura catarinense na tela.

Nessa segunda, dia 23 de fevereiro, Um dia extraordinário será exibido no “Cine BBB”, e todo o Brasil poderá assisti-lo na “Tela Quente”. Quem trabalha com cinema independente sabe o quão significativo é exibir uma obra na TV aberta, e esta será a primeira vez em que um filme catarinense será exibido em rede nacional na TV Globo. Quando um filme catarinense ganha projeção nacional, todos os catarinenses ganham. Cinema é pertencimento. E o cinema catarinense está vivo e pulsando.

Texto publicado em 21 de fevereiro de 2026.

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